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sábado, 31 de outubro de 2009

As noites davam vontade de chorar.

Ele não tinha feito nada. Quieto, em meio aquele seu quarto, daquela sua noite, do seu choro dentro das cobertas.
Almejava um auto controle por respiradas ritmadas, aquilo tudo girava em sem sentido. E o menino ao pé da cama, queria soluções. Queria o antigo abraço, queria sentir aquele corpo que o aprisionara cochichando ao pé do ouvido, cantarolando posse. E ele se entregava em noites frias aos achismos prazerosos e gotejava durante o verão, caindo em misturas homogêneas: sexo e suor.
Agora, só o pé da cama o tinha, o chão gelado pela brisa da madrugada, a janela aberta deixava a Lua fazer visita. Rir dele, chorar com ele, desabafar. O menino queria ter prazo como a Lua.Um descanso... Era tão grande a falta.
O cheiro da cozinha, a leveza dos lençóis, os banhos e as promessas. Secando o cabelo, brincando de se reconhecer, de corpo em corpo. Em não pensar, em gemidos suspirados, aos beijos.
Repente... uma música vinha de longe. Uma música vinda da cidade. Dos segredos só a ela contados, uma canção que havia o escolhido e o pobre menino a queria ouvir. Talvez, ela sim, poderia o entender. As noites davam vontade de chorar. E ele chorava as gotas pingando em seus pés, as gotas clareando as memórias, ou talvez, apagando o esquecimento.
Os ritmos dançando em dois, em instantes parados, momentos em que se olhavam e sabiam o sabor de cada pinta, a textura de seus poros. Sentia o pesar de não se ter e o som da música por tanto ouvida, nos momentos unos e, assim, retidos em memória. Memórias que dentro da cabeça apenas ficavam, lembranças escondidas em não cumprimentos e grosserias.
E seria assim. Ao pé da cama, a música da cidade, a Lua zombando, e o menino queria chorar. Chorar o que não se tinha, o que nunca teve.

Lucas Balieiro

Escatologia

Todos os meus nãos são querendo dizer sim
Não busco definir desvios de sexualidade, seria decisivo demais pra mim
Eu lido bem com as minhas vontades, são elas que dispensam a definição hierárquica por preferências
Como se fosse possível distinguir em qual gênero o desenho da boca é mais bonito; onde a saboneteira se mostra com mais facilidade; quais são os pêlos que eu prefiro puxar e contar; em qual silhueta o osso que liga o abdômen ao quadril é mais atraente
Eu não sei dizer, por isso que eu olho
Não pro rapazinho no ponto de ônibus: eu olho pra mesma saboneteira, mesmas pintinhas, mesmo cruzar de mãos há algum tempo
E se a dose de observação for diária, o encanto só aumenta
Saber que você caga, mija, vomita, ronca, fede e sua até no friozinho atiça a minha curiosidade
Você soltando aquele peidinho sem querer, e eu sorrindo por dentro: a minha certeza é que sou capaz de te querer cada vez mais no dia seguinte
Quer saber? Acho que nunca foi ‘acho que agora eu quero’
(Acho que) eu sempre quis

Juliana Xavier

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sem título

Talvez mais um simples quadro na parede da memória. Relíquia. Quem sabe um outro momento dos tantos que sei que virão.
A luva para aquele instante em que se abre a geladeira e não se tem o que pensar. O gracejo dos segundos de sonho acordado.
A primeira vez em que vetores fizeram algum sentido. Meus sentidos acobertados e minhas cobertas sem sentidos.
Um distúrbio? O além de mim, a sensação de pedra, de rocha, de realização. Para mim, de mim e meu.
O toque, sem jeito, mas torneado. Da cabeça baixa ao alarme por qualquer movimentação. Verossímil.
Manias engolfadas nos nostálgicos corredores de um colégio particular. Controverso, enganado, estupefato. Tudo jogado, pisado, queimado e morto. E cálido.
Mas desses amanheceres o tamanho da vida! Grande , mas de olhos cegos. E que de lapsos irremediáveis escancara azuis, amarelos e vermelhos jamais vistos. São lindos e vale muito a pena os ver.

Lucas Balieiro

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De uma noite

Meu sexo escorrendo na pia,
Meu fogo suando a cama.
Sua voz contava segredos,
Jurava amores,
Seu toque desnudando
Em roupas,
Outras mãos,
Das outras partes -
Escondido.

Meu secreto, seus pêlos
Esculpindo o desejado
Embaixo dos lençóis –
Protegido.

Juvenil amor,
Gostinho do pra sempre,
Mas vai-se como vento,
Como um bocejo,
No cicatrizar de um corte,
Vai-se como meu sexo na pia –
Esquecido.

Lucas Balieiro

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quero/ Carlos Drummond de Andrade

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutosme digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anteriore no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

No dito

Em dizer sim,
por fim, eu nego.

Das negativas
acabo me afirmando.

Incerto, por vezes, me calo.
O silêncio , quase sempre, me mostra.

E sonho,
com aquilo não dito.

No dito, me faço sombra.
Escuro, escolho meus passos.

Não sendo, refaço promessas.
Não digo,
no dito,
no cansar de minhas estórias criadas.

Lucas Balieiro