Páginas

domingo, 28 de novembro de 2010

sem título

" Lembro com muito gosto o modo como ela se referia à ele. Pelo menos ela o fez uma vez e isso ficou marcado muito fundo, dizendo: Caetano, venha ver o preto que você gosta.
Isso de dizer o preto, sorrindo ternamente como ela o fazia, o fez, tinha, teve, tem um sabor esquisito, que intensificava o encanto da arte e da personalidade do moço no vídeo.
Era como se isso somasse àquilo que eu via e ouvia, uma outra graça, ou como se a confirmação da realidade daquela pessoa, dando-se assim na forma de uma bênção, adensasse sua beleza.
Eu sentia a alegria por Gil existir, por ele ser preto, por ele ser ele, e por minha mãe saudar tudo isso de forma tão direta e tão transcendente. Era evidentemente um grande acontecimento a aparição dessa pessoa, e minha mãe festejava comigo a descoberta."



Caetano no Verdade Tropical

terça-feira, 23 de novembro de 2010

dissertando o sussa

Poeta bom é poeta triste? Cansei de afirmar melancolia. Minhas respostas não são metaforicamente surreais e eu não dependo de ironia. Tudo bem, sem crises, talvez eu não seja poeta.
Tampouco adianta atacar meus mecanismos de defesa; cada um faz da sua insegurança o que bem quiser. It’s a long way se admitir inseguro sabendo que essa é a postura mais segura que se pode tomar. Se os ex-gordos justificam a vergonha diante do medo ao retorno às banhas, nada me impede dissertar sobre as minhas (banhas), aquelas encarquilhadas em cada neurônio ativo. E por elas, quanto a elas – puxa, por onde devo começar? – lipoaspiração não é uma opção.
Nesse regime incerto, quero registrar a minha felicidade por: nada. A falta de especificidade me deixa completamente contente. Reconhecer que num parar de bicicleta, o diálogo é frívolo como sempre deveria ter sido; cobrir as pernas com um casaco-encrenca, mas não se importar com nada além do frio.
Fazer de Clarice a melhor amiga pra forjar intensidade nunca foi a minha, assim como brincar de personalidade forte.
Declamar o querer bem sem nenhuma pretensão de resposta. Permitir-se à absoluta certeza de quem tiver que ficar, vai ficar.
(E pensar que tudo começou com um 'não precisa se despedir desse jeito babaca, ju').
Ser pueril é tão gostoso! Ufa, to feliz!

Juliana Xavier

sábado, 20 de novembro de 2010

little joy

To fumando na janela do meu quarto, infringindo as regras. Meus pais moram comigo: minha mãe acha que é curtição, to fumando porque eu bebi. Meu pai acha que eu sirvo de cinzeiro, o cheiro é dos outros, o que ainda é pior, porque sou ‘completamente influenciável’.
Acho que eu nunca escrevi um texto pra você com falta de vergonha pra mostrar pra todo mundo. E eu não to me sentindo valente, estar na frente de um computador me deixa mais triste.
Porque a minha vontade é nunca te deixar triste, mostrar um mundo em que a tristeza não é possível. E aí, de pouco em pouco, a gente se mostra entre amigos recém feitos pra mostrar o quanto a gente mudou. Fazemos-nos exames fraudados, respostas em teste A, B, C e D não são suficientes. Deveria ter um teste com respostas com possibilidade E, a alternativa dissertativa pra justificar em texto o que não pode ser reduzido.
Não me agüento em humanidades: choro, rio, ligo rindo e chorando; fico sabendo sobre cotidianidades que eu gostaria de viver, mas não vivo. E, numa ligação de cinco minutos, tento desvendar um dia inteiro - doce ilusão: como se isso fosse possível.
Eu não tenho os dias, perco os segundos primordiais e não tem uma segunda-feira que não consiga sofrer por isso. Tenho vontade de gritar pro mundo sobre a sorte: ‘não desdenha, olha a grandiosidade dessa menina!’. E, ao mesmo tempo, só quero te guardar pra mim, como minha primeira descoberta. A minha primeira concha da praia, a primeira vez que eu vi o mar.
Concordamos em discordar da repetição: muitos textos em um blog te tornam um desesperado, não num talentoso.
Só quero que você me ouça em cada frase escondida te pedindo um cigarro sem tragar- tragando: acho que eu te preciso mais do que gostaria de admitir. Ver as lacunas da sua própria vida sendo preenchidas pouco-a-pouco, medindo as importâncias; desdenhando as importâncias, ouvindo as batidas do coração, concordando na ingenuidade e sendo incapaz de fazer diferente.
Acho que eu te preciso tanto quanto a minha vontade de tirar o sapato quando chego em casa;
Te preciso mais que os pontos finais desse ou qualquer texto. Produziria um trabalho de conclusão de curso pra tentar mapear em 1.1 ou 2.2 o que eu sinto e organizar a minha cabeça. Mas como organizar endorfina?
Sentindo.

Juliana Xavier