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sexta-feira, 22 de outubro de 2010

moletom is bliss

Com todos os seus subterfúgios sobre política, música e falsa popularidade, eu só tenho vontade de ir pra casa em uma sexta-feira à noite. Engano meu repetir na cabeça que isso não me incomoda. Isso – os seus subterfúgios. É como se os meus olhos acompanhassem uma chuva de canivetes. E enquanto você discursa sobre qualquer coisa, a minha vontade, entre vírgulas, é dizer: mas isso é importante mesmo?
Não, não é. E aí eu me despeço subindo ladeiras e sorrindo comigo. Não há cerveja, boazinha, maconha, ficada ou trepada de uma noite só que consiga me convencer que eu deveria estar em outro lugar.
Eu estou exatamente onde eu gostaria de estar agora: na minha casa com a minha calça de moletom, o meu subterfúgio adquirido por apenas vinte e nove reais em uma loja de segunda mão. A noite é como outra qualquer e as histórias vão cair na repetição do dia seguinte, vão durar um fim de semana no máximo. A ressaca não ajuda a lembrar dos detalhes.
Felicidade não é quando você não desejaria estar em outro lugar que não o que você viveu naquele instante, naquela marcação temporal? Pois marquem: são quatro e pouco da manhã, o sábado tá começando e eu to em casa com a minha melhor calça de moletom.

Juliana Xavier

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

rima pra quê

comprar um estetoscópio/ embrulhar em papel presente / fazer você abrir na minha frente / pra você parar de achar / que meia dúzia de palavras organizadas / determinam pontos finais / don corleone da retórica / com um estetoscópio / meu coração fica em suas mãos

domingo, 17 de outubro de 2010

como descascar laranjas

A palavra autonomia me causa arrepios como a peste negra gerava pavor nos vassalos e suseranos. Ela não é transmitida por pulgas, mas me assombra em cada resquício de criação familiar. Assim, não saber fazer o movimento da pinça enquanto eu descasco uma laranja é um erro tão crasso quanto se tivesse assaltado alguém. Também é uma afronta ao ser humano que lutou por zilhões de anos pra comprovar que é diferente do macaco, mas culpa o instinto animal em comportamentos não tão humanos assim. Instinto materno também justifica o desejo das mulheres workaholics que, forçosamente, colocaram o pinto na mesa nas grandes empresas, mas arregam em admitir um desejo tão primário, arcaico e demasiadamente humano que é nascer pra reproduzir. “Eu nasci pra ser mãe” é o novo “socorro, ela é uma bruxa!”. Produz linchamento em praça pública e mesas de bar. É assim que nascem as mães octopus (ou o que uma penca de filhos pode fazer pelos límpidos costumes norte-americanos. Ou 'nossa, o circo chegou! Temos um novo Homem Elefante', ou 'não chupei um presidente, mas já chupei bastante gente e cá estou', ou ok, parei com o julgamento).
Assalto, pois, é condenável. Mas se eu tiver bêbada ou se peguei sem pagar um saco de bubaloo sabor uva nas Americanas é perdoável; demorar vinte minutos pra descascar uma laranja não pode: é o seu atestado de incapacidade por preguiça; é, mais uma vez, uma afronta ao ser humano - PS: É o apontamento de falhas na minha criação. Nenhuma mãe quer sofrer por isso.
Os sete pecados se eximem de culpa em se tratando de pequenas habilidades diárias. “Pois mãe, não sei fazer arroz porque quero viver de amor”. E até onde eu saiba, amor não gosta de arroz. Amor não gosta de nada. Amor é a mina mais autônoma que eu já conheci. Dinheiro é a vadia que arruma as malas e resolve desaparecer do dia pra noite. Dinheiro deixa rombos emocionais. Amor não. O amor não arruma as malas; é justamente quando ela promete ficar pra sempre.
Eu crio teses, retórica e argumentos pra defender o meu desleixo. Eu deixo a autonomia aos idiotas da evolução e ao mito da mulher independente.
Deixo a autonomia pra depois, peço pra alguém gentil descascar as minhas laranjas.

Juliana Xavier

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

tchau

Vou mentir o meu aniversário pra ser leonina egocêntrica.
Tudo o que vem de mim vai ser mais interessante do que vem de você. Assim posso me sentir mais confortável com o seu egocentrismo.
Sua desculpa não é nem astrológica, seu signo não é do rei da selva. Seu signo pica, arde e faz doer.
Você é a prova viva que a astrologia é verossímil, pau em quem acha que não.
Você criou alergias emocionais e cacoetes de nervosismo. Você me faz ser mais chata, carente e repetitiva. Faz-me criar palavras em um blog de criança-adulta, parágrafos que eu nem quero digitar, mas os dedos não deixam, cravam com tanto ardor vírgula pós vírgula.
O ridículo da situação está em não conseguir controlar até os próprios dedos. Eles assumiram vida própria, só se envergonham na hora de erguer o dedo médio e se despedir honrosamente.
Que apodreça sozinho isso que nunca existiu por inteiro, já que não se sofre por morte de inexistência.
Se eu sofro é pela minha burrice e eu me despeço colocando um continente de distância.
Não to indo por fuga. Vou-me em nome dos encontros.

Juliana Xavier