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segunda-feira, 16 de maio de 2011

pintinho

To tentando escrever sobre abstracionismo e subjetividade. To sentindo 'medo' e 'euforia', ou alguma coisa parecida com isso. É foda ter cabeça pragmática e coração em desalinho. Meu coração é burro feito uma porta, semianalfabeto: só entende de vem, vai, sim e não. Pelo menos minha cabeça imprime isso, sei lá. É tão estranho sentir que há duas partes largamente desconexas no seu corpo: parece que alguém entrou na minha festinha sem ser convidado. É aquele bicão que dá vexame, só que demora pra ir embora, fica ali, deitado no chão da sala atrapalhando a limpeza.

Sabe o que eu queria mais? Ter aquela profissão de saber cheirar pra distinguir perfumes. Sabe o que eu queria muito mais? Separar a flor-de-laranjeira do cheiro da grama, por exemplo. E do cheiro de bosta também, de encrenca. Será que o seu cheiro é de mar? Do seu irmão? Da sua mãe? O seu cheiro num pedaço de pano, num conjunto de linhas... Quanta heresia! Sábio aquele que soube definir amor com uma palavra: cheiro. Amor é reação fisiológica animalesca porque é exatamente isso o que a gente é: animal. Animal que sabe juntar letrinhas pra descrever o que sente, pra descrever os cheiros que sente.

Voltando ao seu cheiro: ele interrompeu a minha tarde. Voltando à sua fala: você espera o morno, café requentado, porque ninguém vive em pirofagia durante anos. Voltando à minha: se for desse jeito, não quero mais. Voltando à nossa: ninguém é um pote de danone de fácil substituição. Voltando à despedida: todo cuidado é pouco. Voltando à minha cabeça: Você.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

o que queres?

Eu me rendo: vem pintar as minhas lágrimas com a sua caixa de giz pastel. Vamos descobrir quem tem água mais salgada no corpo? As suas são exatamente do lado de lá, das terras sotaqueadas, onde xis vira ípsilon e o alfabeto de cada um é ornamentado feito guarda roupa pessoal, feito porta joia da vovó.

Como princesa resistente, me saí super mal. Teimei em escutar outros contos de fada pra voltar a acreditar na validez de tudo, menos na falta de elogio na hora certa. Menos falar que odeia sem ser de coração. Isso é um crime hediondo, digno de forca, cadeira elétrica. Com você, eu aprendi que ódio é coisa séria, só serve se a esperança findar.

Entre esmeros&cuidados distantes, perfiz meus passos com calçada de segurança: tem alguém lá pro norte, quase a caminho do céu, que se ocupa em produzir pequenos presentes diários com grandes doses de bem-me-quer. Eu era uma casa muito engraçada, tão deprimentemente engraçada, não tinha teto, não tinha nada. Você entrou, colocou a nossa rede na sala e nunca mais saiu. Chamou um par de gatos – qualquer casa feliz precisa de animais de estimação, menos passarinhos. Passarinhos foram feitos pra voar. Mas a gente nasceu pra ficar na nossa gaiola comendo sol, chuva e alpiste, no livre exercício da falta de covardia. A gente sente. A gente sabe. A gente até aprende a usar o telefone direito pra ouvir voz à distância.

Ah, l’amour é isso então? Conter a felicidade já que não sabe o que se sente? O amor é imperativo? Eu quero você, aqui, agora? Patati ou patatá? Eu quero você, eu quero ser você, eu quero morar em você?

O desejo é uma coisa sacana mesmo: eu não desejo ouvir eu te amo, porque sei que nos amamos já. Muito menos eu te odeio, você é frágil demais pr’esse mundo leviano. Poesia para os meus ouvidos: você vem! A declaração mais bonita que já me fizeram.

A gente é o nosso próprio bônustrack, my love. Quem vem depois de Qualquer Coisa ou Totalmente Demais somos nós, sabia? Pronto. Se não sabe, esse é mais um segredo pra nossa caixinha-artesanal-com-areia-e-cartinha.