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quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

no repeat

Você tem medo que eu cresça
Você tem medo que eu mude
Você não quer que eu cresça
Você não quer que eu mude
Aí você congela pequenos frames, detalhes ínfimos de histórias mal acabadas pra usar no seu quebra-cabeça capenga. Como se o tempo fosse parâmetro pra intensidade das coisas vividas. 2 anos de namoro, 5 anos de convivência, 23 anos de casamento e mais uma porção de anos que são armas pra estufar o seu peito: ‘eu te conheço!’
Me conhece?! Pra você pegar esse quebra cabeças e montar toda santa vez que a gente se encontra? Pra você usar a sua teia de memórias pra me dar puxão de orelha: ‘ei! Você não era assim’?
Sabe o que você não sabe?! Eu tenho o direito de ser o que eu quiser.
E não querendo admitir a sua importância, mas já admitindo: eu aceito as suas ordens e suposições. Eu quero e (não) quero me perder de você.
Eu não sei em que medida que eu quero me perder (com) você.
Admito um monte de falhas, conto histórias por cima, acordo irritada, fico sussa, aí fico puta de novo e fico sussa de novo – não com você (nunca foi com você), mas com a situação.
Eu não me dou o direito de ser o que quiser com você. Viro até um bicho completamente desumanizado: não cago, não peido, não vomito, peço desculpa, fico sem graça e não tenho o direito de errar na intenção, na maldade.
Por que eu te devo tanta coisa, hein?! Por causa do tempo que a gente se conhece?!

Juliana Xavier

Entrepostos

Não foi por um blog não dito. Nunca fui muito bom na arrogância. E tenho exímios planos para conseguir esmiuçar segundos de descaso.
Sentimentalmente patético, não decido, postergo. Na esperança de algum sinal, de saber se aquele caminho estaria me levando a algum lugar mais desconhecido ainda.
Eram voltas ali, caras e bocas, um frágil otimismo e o nada , famoso símbolo de resposta pronta. Meu nada e o não acontecer delimitado diariamente até o ponto que já não existem dúvidas. Tamanha vida chata. Não podendo existir qualquer pergunta, aquilo se quebraria. Por não ter sido formulado assim. Foi construído na desordem e, dessa vez, um prefixo detonaria aqueles últimos vestígios. Os últimos respiros de nuvens, a luz que entrava pela janela e dançava com o vento.
Enquanto ainda podia me perguntar, poetei.
Nos momentos que vi o contra fluxo, quis chorar.
E esperando outros dias, conseguia fazer versos do álcool de minhas noites, das folhas de minhas árvores, das cores de um entardecer.
Foram crônicas, poemas, estórias imaginadas e permeadas pelo não saber.Pois enquanto via razão para desconhecer, eu o quis. E fui tecendo uma coberta que deu subsídio para os tantos sonhos. Acreditei naquele enredo e não gostava de pontos finais.
Mas eles vieram, quebrando grafites.
Fui tachado como sonhador, como o grande artista criando estória para boi dormir. Postando bestialidades durante a madrugada, cuspindo verbos secos e amargos sem razão. Sociopata. Obsessivo. Doente. Extremista.
No fim das contas, fui a personagem principal de uma estória sem enredo, sem elenco e sem autor.
Por aqui,ainda acredito que não tenha sido isso. Seria triste demais. Mas me deram essa orelha e eu quis ouvir. Desacredito, mas parei de indagar. E ,hoje, acho bastante definido.
Linhas exatas de não existir. E isso corta aqui dentro.
No agora, o que faço é somente um bem a você. Queria diferente, mas não posso voltar a construir linhas , não tendo mais perguntas. Não posso viver no pálpavel, nesse enfadonho dizível.
Chegou a hora, de fazer linhas com os alguéns que , de fato, conquiste. Nas pessoas que estão ali para você. Em amigos seus.
Desaproprie-se daquilo dado de mãos abertas, enquanto ainda tantas dúvidas emanavam. Enquanto frases estavam sendo feitas, tendências reforçadas, sentimentos percebidos.
Tudo foi explicado, e a não resposta daquele último texto, cortou demais. E aqueles choros oprimidos depois do Dia de Natal, são muito fundos. E o vômito escorrendo depois do impossível ouvido, são escolhas feitas.Ou ,talvez, a facilidade em dizer: quão sonhador, o menino.
O que se sabe é que sem perguntas, o grafite quebra. E, a imaginação tão endossada, me falha e não consigo recomeçar parágrafos. Há coisas que não podem ser feitas de nuvens.
Ainda assim, não faço para atingir ou por egoísmo. Faço por não gostar de caras feias, por querer que ainda conquiste e me desafiar com a não entrega. Simplesmente.
Em vista, aquela raiva imaculada. Caminhos dos mais fáceis.
Cortante, ver o branco dos dentes se misturar com a água que os olhos regavam.
Silêncio, quando , mais uma vez, se passou e ninguém viu.

Lucas Balieiro

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

we just want the attention

Eu olho pra sua vida e tento achar alguma fresta, nicho ou até quina onde eu possa caber.
Eu olho pra minha vida: examino os espaços que eu deixaria você tomar.
Aí eu cruzo as nossas vidas e a história é exatamente a mesma: escola católica, primeiro beijo, primeiro porre, íris, more than words, gás de isqueiro, kurt cobain, benflogin, primeiro beck frouxo, donnie darko, primeira vez, los hermanos, viagem de formatura, c.r.a.z.y., cursinho, faculdade, estágio e as únicas mudanças palpáveis são duas: agora temos carta, taking risks com o carro da família e admitimos escutar música pop sem grandes problemas. Pra terminar bem o ciclo: madonna, justin timberlake e lady gaga estão sim no seu e no meu ipod.
Eu paro no estágio e nos gostos musicais porque é aonde estamos agora. E mais: eu paro no estágio porque eu não sei se eu aceito essa cartilha pré-fabricada. É como se todos os velhos do mundo virassem pra mim e dissessem que não tem mais surpresa alguma. Tudo bem, pode até ser verdade. Mas eu prefiro acreditar que não.
Você entende?! Eu tenho 1000 kg nas minhas costas. Tenho duas mãos também. E não vai ser o tempo, o acaso, a predestinação ou qualquer explicação patética que tenta ordenar caminhos diferentes que vão conseguir margear o meu pragmatismo – ou eu posso seguir essa cartilha ou eu posso rasgá-la.
Se eu quero passar pela sua vida, que seja pra tirar os seus pés do chão. E se você tem a pretensão de ter algum papel na minha, que seja pra me trazer de volta.

Juliana Xavier