Renata, se você continuar egocêntrica assumida e procurar seu nome no Google, espero que esse texto chegue à você além da lista da FUVEST de 2008 com os aprovados em audiovisual, tá bom?
(Vamos testar o nosso medo de internet agora)
O meu primeiro ‘foda-se’ do âmago foi na negação combinada diante de uma proposta sem sentido do professor de artes plásticas. Renata e eu só fazíamos coisas que pudessem levar argila, ou seja, teria que ser sempre uma escultura tridimensional. Cazuza? Ideologia, quero uma pra viver? Tridimensional. Cubismo? Tridimensional. Paisagem? Tridimensional. A gente era dadaísta convicta, qualquer tema resultava em uma grande bosta de argila.
Pois bem, apareceu outro tema sem sentido e continuamos na linha do cocô de argila. Cocô de argila pra tudo, claro que nunca bem aceito. O professor ficou cansado, ou talvez curioso, perguntando sobre os nossos métodos, e o diálogo seguiu mais ou menos assim:
- Gostamos de argila, Carlos.
- Sim, mas ficaria mais fácil fazer um cartaz, uma pintura nesse caso.
- Tá bom.
Por trás da conformidade, a gente sabia que manteríamos a bosta de argila; só que agora, no fundo da obra, Renata sugeriu um pequeno ‘foda-se’ cravado com palito de dente.
Obrigada, Renata, por ter estudado na minha sala e não ter levado a sério a minha ofensa diante dos seus óculos com durex no meio do nosso primeiro contato.
Quando o ‘foda-se’ foi cravado na bosta de argila, a minha personalidade absorveu a primeira mudança definitiva: eu era a irmã da Mariana (uma Xavier, não Felix), mas também era a dupla ‘foda-se’ nas obras de barro. É muito bom pronunciar palavrões; cristalizá-los, então, é melhor ainda. E sabe a única coisa que consegue ser melhor que isso? Cristalizar uma postura.
E desculpa pelo cano na Virada Cultural. Fiquei com medo que você achasse que eu perdi a graça.
Juliana Xavier