Páginas

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Martin com N

Tudo o que eu sou hoje se deve ao primeiro ‘foda-se’ que eu ouvi lá no colegial, onde começa a ser importante ser alguma coisa. E quem o disse foi a Renata do 1º, 2º e 3º B.
Renata, se você continuar egocêntrica assumida e procurar seu nome no Google, espero que esse texto chegue à você além da lista da FUVEST de 2008 com os aprovados em audiovisual, tá bom?
(Vamos testar o nosso medo de internet agora)
O meu primeiro ‘foda-se’ do âmago foi na negação combinada diante de uma proposta sem sentido do professor de artes plásticas. Renata e eu só fazíamos coisas que pudessem levar argila, ou seja, teria que ser sempre uma escultura tridimensional. Cazuza? Ideologia, quero uma pra viver? Tridimensional. Cubismo? Tridimensional. Paisagem? Tridimensional. A gente era dadaísta convicta, qualquer tema resultava em uma grande bosta de argila.
Pois bem, apareceu outro tema sem sentido e continuamos na linha do cocô de argila. Cocô de argila pra tudo, claro que nunca bem aceito. O professor ficou cansado, ou talvez curioso, perguntando sobre os nossos métodos, e o diálogo seguiu mais ou menos assim:
- Gostamos de argila, Carlos.
- Sim, mas ficaria mais fácil fazer um cartaz, uma pintura nesse caso.
- Tá bom.
Por trás da conformidade, a gente sabia que manteríamos a bosta de argila; só que agora, no fundo da obra, Renata sugeriu um pequeno ‘foda-se’ cravado com palito de dente.
Obrigada, Renata, por ter estudado na minha sala e não ter levado a sério a minha ofensa diante dos seus óculos com durex no meio do nosso primeiro contato.
Quando o ‘foda-se’ foi cravado na bosta de argila, a minha personalidade absorveu a primeira mudança definitiva: eu era a irmã da Mariana (uma Xavier, não Felix), mas também era a dupla ‘foda-se’ nas obras de barro. É muito bom pronunciar palavrões; cristalizá-los, então, é melhor ainda. E sabe a única coisa que consegue ser melhor que isso? Cristalizar uma postura.
E desculpa pelo cano na Virada Cultural. Fiquei com medo que você achasse que eu perdi a graça.

Juliana Xavier

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

weeds

Me convida pra dar um rolê no seu quintal
Você mora em um apartamento de 40 m² com uma janela significativa porque o resto é tudo basculante
Mas me convida pra dar um rolê no quintal
Eu vou te falar da rede que a gente vai ter e do cachorro-feio-mas-mais-bonito-do-bairro chamado Tosco
Aí eu vou fazer uma pipoca de panela, já que a de microondas nunca fica no ponto ideal
Mas a gente vai ter microondas porque a gente não vai ser um casal neo-hippie como o seu amiguinho maconheiro & com consciência pesada que planta a própria maconha e a sua esposa que gosta e tem tanto apreço pelos baseados caseiros
A gente não vai ser maconheiro at all: eu só vou me lesar de você e você só vai se lesar de mim

Juliana Xavier

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

tum tum

Eu não vou te ensinar a ser ser humano
Você só sabe ser sociopata
Stuck in the middle with you...tsc tsc
Isso não é uma porra de um filme do Tarantino
Nem que você quisesse seria tão emocionante quanto
Eu sinto mais remorso do que deveria
Eu tremo
Eu choro
Eu pisco muito quando eu minto muito
Não vou te ensinar a ser ser humano
Quando o que você quer viver é historinha de blog de Nova York
Minha escola é outra, meu caro: sofri por amor platônico, juvenil e estúpido; tenho irmã distante geograficamente; já tomei cachaça em garrafa de plástico e andei sozinha, a caminho de casa, depois da uma da manhã em bairro da zona sul. Já visitei dois outros países também. Conheço o Ceará com a palma da minha mão, passei minhas férias entre escolas por lá
Já li Salinger, Fante e Mafalda. Não me lembro de uma frase de nenhum deles.
Nada disso me faz ser mais ser humano, sabia? Para isso basta acordar todos os dias, ter pernas e um bom fígado
Ser o que você não é me faz ser ser humano. Não sei história, matemática, geografia. Não sei porra nenhuma
(mas eu ainda consigo ficar em silêncio pra ouvir as batidas do meu próprio coração)

Juliana Xavier

domingo, 12 de setembro de 2010

...just in time

Você só mostra fotografia do seu ombro porque consegue forçar marcas de uma saboneteira que geralmente não existe. Enquanto você anda, abaixa, se espreguiça, ela continua não existindo. É porque os ombros são a parte do corpo que mais passam incólumes às variações de peso, não é mesmo?
Você só tira fotos fragmentadas porque tem medo de se mostrar por inteiro.
Você força uma espontaneidade que não permeia o seu dia-a-dia. Nem com o cobrador de ônibus, que é quando ninguém está por perto, você não consegue se sentir confortável pra usar o tom de voz que quiser. Não consegue parar de mexer no cabelo, sozinha, e maldizer a genética que pode não ter te favorecido. Aquela vó preta que teve um caso com um descendente de italiano não deu à sua mãe, e, infelizmente, à você mesma, a menor chance de ser exótica, assim, positivamente falando. Exótica modelo: cabelo de índio, nariz largo, ossos do quadril à mostra. E agora você se esforça à exaustão pra tentar, no mínimo, ser um pouquinho caucasiana.
Eu sinto o seu desespero de fake. Eu cheiro o seu desespero. E eu não lamento porque quem te colocou nesse buraco foi você mesma.
Estoy aqui, free as a bird. Metendo-me em acidente de carro e sobrevivendo. Tatuando o meu corpo sem passar pomadinha depois. Pois saiba que o meu desespero não é nada fake: é de quem coloca os pés pra fora de casa e não sabe o que vai acontecer nos cinco minutos seguintes.
Eu não rio de você nem sinto pena. Eu rio quando os músculos da minha cara resolvem rir. Eu rio de raiva e choro porque to rindo demais.
Em um assoprão você pode desaparecer. Eu sei disso e você também. Pero estoy aqui, free as a bird. Tô tranqüila, chorando de rir de mim mesma.


Juliana Xavier