Você só mostra fotografia do seu ombro porque consegue forçar marcas de uma saboneteira que geralmente não existe. Enquanto você anda, abaixa, se espreguiça, ela continua não existindo. É porque os ombros são a parte do corpo que mais passam incólumes às variações de peso, não é mesmo?
Você só tira fotos fragmentadas porque tem medo de se mostrar por inteiro.
Você força uma espontaneidade que não permeia o seu dia-a-dia. Nem com o cobrador de ônibus, que é quando ninguém está por perto, você não consegue se sentir confortável pra usar o tom de voz que quiser. Não consegue parar de mexer no cabelo, sozinha, e maldizer a genética que pode não ter te favorecido. Aquela vó preta que teve um caso com um descendente de italiano não deu à sua mãe, e, infelizmente, à você mesma, a menor chance de ser exótica, assim, positivamente falando. Exótica modelo: cabelo de índio, nariz largo, ossos do quadril à mostra. E agora você se esforça à exaustão pra tentar, no mínimo, ser um pouquinho caucasiana.
Eu sinto o seu desespero de fake. Eu cheiro o seu desespero. E eu não lamento porque quem te colocou nesse buraco foi você mesma.
Estoy aqui, free as a bird. Metendo-me em acidente de carro e sobrevivendo. Tatuando o meu corpo sem passar pomadinha depois. Pois saiba que o meu desespero não é nada fake: é de quem coloca os pés pra fora de casa e não sabe o que vai acontecer nos cinco minutos seguintes.
Eu não rio de você nem sinto pena. Eu rio quando os músculos da minha cara resolvem rir. Eu rio de raiva e choro porque to rindo demais.
Em um assoprão você pode desaparecer. Eu sei disso e você também. Pero estoy aqui, free as a bird. Tô tranqüila, chorando de rir de mim mesma.
Juliana Xavier
Nenhum comentário:
Postar um comentário