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domingo, 12 de setembro de 2010

...just in time

Você só mostra fotografia do seu ombro porque consegue forçar marcas de uma saboneteira que geralmente não existe. Enquanto você anda, abaixa, se espreguiça, ela continua não existindo. É porque os ombros são a parte do corpo que mais passam incólumes às variações de peso, não é mesmo?
Você só tira fotos fragmentadas porque tem medo de se mostrar por inteiro.
Você força uma espontaneidade que não permeia o seu dia-a-dia. Nem com o cobrador de ônibus, que é quando ninguém está por perto, você não consegue se sentir confortável pra usar o tom de voz que quiser. Não consegue parar de mexer no cabelo, sozinha, e maldizer a genética que pode não ter te favorecido. Aquela vó preta que teve um caso com um descendente de italiano não deu à sua mãe, e, infelizmente, à você mesma, a menor chance de ser exótica, assim, positivamente falando. Exótica modelo: cabelo de índio, nariz largo, ossos do quadril à mostra. E agora você se esforça à exaustão pra tentar, no mínimo, ser um pouquinho caucasiana.
Eu sinto o seu desespero de fake. Eu cheiro o seu desespero. E eu não lamento porque quem te colocou nesse buraco foi você mesma.
Estoy aqui, free as a bird. Metendo-me em acidente de carro e sobrevivendo. Tatuando o meu corpo sem passar pomadinha depois. Pois saiba que o meu desespero não é nada fake: é de quem coloca os pés pra fora de casa e não sabe o que vai acontecer nos cinco minutos seguintes.
Eu não rio de você nem sinto pena. Eu rio quando os músculos da minha cara resolvem rir. Eu rio de raiva e choro porque to rindo demais.
Em um assoprão você pode desaparecer. Eu sei disso e você também. Pero estoy aqui, free as a bird. Tô tranqüila, chorando de rir de mim mesma.


Juliana Xavier

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