Eu nunca tento pegar copo de vidro no ar, eu aceito a queda na boa. Não por medo de me cortar, mas porque é estranhamente gostoso ver o copo se espatifando no chão.
Um exemplo verossímil?! Meu primeiro dia de calça branca. Sempre quis uma, comprei faz pouco tempo. Tava me sentindo bem, sabe? Camiseta preta legal, calça branca, cabelo ok e all star de cano alto. Tava pagando, claro. Mas tava me sentindo bem daquele jeito. E não se enganem: é muito fácil encontrar pessoas vestidas exatamente iguais a você em grandes cidades. Pois é, não se espantem: em São Paulo, não existe genuinidade. Há tribos até para não tribos.
Bom, cheguei mais cedo aonde eu deveria chegar. Cheguei de calça branca e pedi um café preto. Sentei-me em uma das mesinhas da lanchonete, arranquei uma folha do meu caderno de motivos infantis (mais um traço da minha falta de maturidade?! Será?!) e comecei a escrever um e-mail pra alguém que certamente nunca vou enviar de verdade, assim como milhões de textos muito bem guardados em folhas dobradas e arquivos de computador. Um amigo chegou: interrompi o texto, dobrei o papel e botei em um dos bolsos.
Ele, com seus gestos largos, jeitão de Don Corleone, abre um dos braços e derrama todo o café na minha calça branca. Todo! Mesmo!
Pois bem, sabe o que eu fiz?! Levantei e não gritei, não berrei, não falei palavrão, nada. Fiquei olhando o café quente colorir a calça, mudar o meu cheiro. Só depois de alguns minutos resolvi ter alguma reação. A moça da lanchonete optou pelo terrorismo, ‘nossa, a calça é branca ainda, não vai sair nunca!’. Passou-me uma receita paliativa qualquer, me emprestou um detergente e me mandou direto ao banheiro. E foi exatamente o que eu fiz, arrastando também o meu amigo pra lá. No toillete, tirei as calças na frente dele fazendo uma piadinha infame da situação, ‘ah, pelo amor de deus, não tem nada que você ainda não tenha visto por aqui’. Ele, puxando as mangas da camisa, pegou o detergente e passou nas manchas, que até saíram, mas no final, depois do detergente, parecia que o meu banho foi no chiqueiro, junto com os porcos no lamaçal.
Eu gostaria que ele soubesse que eu não tava me importando muito com o cheiro ou com as manchas. O processo inteiro foi bizarro de tão bom: o café - cheiro e intensidade bem no meio das minhas pernas.
Eu não me importo em limpar a sujeira. Eu fissuro no movimento. Quedas de cima pra baixo, de baixo pra cima, debochando da gravidade: o que importa é o movimento. Espiral, brusco, lento, tosco, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, como leitura japonesa.
Nada que se não movimento.
Juliana Xavier