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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

glass


Eu nunca tento pegar copo de vidro no ar, eu aceito a queda na boa. Não por medo de me cortar, mas porque é estranhamente gostoso ver o copo se espatifando no chão.
Um exemplo verossímil?! Meu primeiro dia de calça branca. Sempre quis uma, comprei faz pouco tempo. Tava me sentindo bem, sabe? Camiseta preta legal, calça branca, cabelo ok e all star de cano alto. Tava pagando, claro. Mas tava me sentindo bem daquele jeito. E não se enganem: é muito fácil encontrar pessoas vestidas exatamente iguais a você em grandes cidades. Pois é, não se espantem: em São Paulo, não existe genuinidade. Há tribos até para não tribos.
Bom, cheguei mais cedo aonde eu deveria chegar. Cheguei de calça branca e pedi um café preto. Sentei-me em uma das mesinhas da lanchonete, arranquei uma folha do meu caderno de motivos infantis (mais um traço da minha falta de maturidade?! Será?!) e comecei a escrever um e-mail pra alguém que certamente nunca vou enviar de verdade, assim como milhões de textos muito bem guardados em folhas dobradas e arquivos de computador. Um amigo chegou: interrompi o texto, dobrei o papel e botei em um dos bolsos.
Ele, com seus gestos largos, jeitão de Don Corleone, abre um dos braços e derrama todo o café na minha calça branca. Todo! Mesmo!
Pois bem, sabe o que eu fiz?! Levantei e não gritei, não berrei, não falei palavrão, nada. Fiquei olhando o café quente colorir a calça, mudar o meu cheiro. Só depois de alguns minutos resolvi ter alguma reação. A moça da lanchonete optou pelo terrorismo, ‘nossa, a calça é branca ainda, não vai sair nunca!’. Passou-me uma receita paliativa qualquer, me emprestou um detergente e me mandou direto ao banheiro. E foi exatamente o que eu fiz, arrastando também o meu amigo pra lá. No toillete, tirei as calças na frente dele fazendo uma piadinha infame da situação, ‘ah, pelo amor de deus, não tem nada que você ainda não tenha visto por aqui’. Ele, puxando as mangas da camisa, pegou o detergente e passou nas manchas, que até saíram, mas no final, depois do detergente, parecia que o meu banho foi no chiqueiro, junto com os porcos no lamaçal.
Eu gostaria que ele soubesse que eu não tava me importando muito com o cheiro ou com as manchas. O processo inteiro foi bizarro de tão bom: o café - cheiro e intensidade bem no meio das minhas pernas.
Eu não me importo em limpar a sujeira. Eu fissuro no movimento. Quedas de cima pra baixo, de baixo pra cima, debochando da gravidade: o que importa é o movimento. Espiral, brusco, lento, tosco, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, como leitura japonesa.
Nada que se não movimento.

Juliana Xavier

sábado, 19 de dezembro de 2009

Eu e você

Então, deixe ser o por enquanto.
Não resistir. Sentir o calor,o galo cantar e não ver a hora.
Ter meu cabelo todo emaranhado, não seriam nós. Era sua mão.
Deixe por essa noite ter seu corpo, em mim, pra mim. Meu.
Não acredito em livros, os filmes deixaram de ser verossímeis.
Mas façamos esse instante?
Meu e seu.
Não pense.
Deixe eu te arranhar,
desenhe minha boca,
me faça homem,
singelo e intenso.
Permitindo o ser,
não faça em mim o gosto de saudade.
Dói demais e sinto não querer suportar.
Me goze,
me faça,
me tenha,
nesse instante.
Hoje.
Sendo meu e seu.

Lucas Balieiro

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ui ui ui!

Você não faz ideia do quanto é gostoso te ver exibindo a sua insegurança feito pavão depenado!
Pisando em ovos, é?! Experimenta um pouquinho da sensação que eu tive durante um bom tempo. Pois meu amor, se existe karma, ele tá se manifestando e é agora!
Estou em plenos direitos de cantar vitória antecipadamente e fincar a bandeira de vitória em tudo quanto é coisa mal resolvida.
Eu juro que eu queria que o mundo não tivesse joguinhos&blefes, tá por cima, tá por baixo. Mas tem, e agora ando leve em passos muito contentes.
Não me acuse de mal agradecida, eu reconheço a sua importância. Quer ouvir o que você já sabe, mas o seu ego sempre implora por mais, mais e mais?! Eu nunca vou me esquecer de você, pro bem ou pro mal.
E apesar de você ser você, não há melhor remédio do que sentir aquele nervosismo de novo (agora pode se ofender: finalmente não é por você).
E é só isso que eu tenho a dizer, pois se de fato eu fosse tão rancorosa assim, dedicaria esse blog inteiro às minhas mazelinhas sem fim.
Ai, que delícia!

3,14

Sangue fervendo: ligar pra você pela primeira vez. Claro, bebi uma ou duas cervejas antes e mais uns goles do champagne caro roubado no supermercado.
E eu sei como vai ser: você vai falar sem parar porque você é assim e eu fico encarregada de preencher as lacunas silenciosas, aqueles poucos segundos de ar entrando ou saindo. Eu preciso ser convincente sobre o quanto essa ligação é despretensiosa, o quanto eu to relaxada, apenas fazendo um convite. Aí, entre tentativas de parecer legal e disponível, você lembra que essa conversa não é um monólogo.
Poxa! Eu que te liguei, eu tenho coisas a dizer! E eu começo a sorrir porque me lembro que você não fala tanto assim: o nervosismo fala mais alto, não é? Aí chega a um ponto em que eu não me importo mais com o convite negado ou se a sua desculpa foi, de fato, sincera. A gente dividia nervosismo, e eu, no auge do meu romantismo, transformo isso em lembrança gostosa.
A gente marca pra outro dia, pode ser até uma frase feita. Mas quem disse que eu ligo?! A minha pequena vitória está em conseguir te ligar, e não se esse telefonema será uma pequena amostra do que vem pela frente. E por mais que eu queira isso cada vez que os números repetidos aparecem – a cada 22:22, 17:17, 01:01, o meu pedido é você – fico contente com esse wannabe.
Eu não sigo uma cartilha. Não tenho modismos ou fórmulas eficientes pra chamar a atenção de ninguém. Eu faço tudo meio sem jeito, sabe? Quando eu esqueço que o meu sangue ta borbulhando e eu não to mais rindo de tudo que você fala, eu consigo reparar que realmente não existe a menor estratégia nas coisas que eu faço.
E bom, eu desligo o telefone pensando no que eu espero: algum dia você vai saber que foram 4 minutos da minha vida tentando prestar atenção no que você falava e, ao mesmo tempo, tentando me concentrar pra não parecer muito idiota.
Dali a meia hora, ligo pra outra pessoa. Outra pessoa que eu não ligo bastante, mas eu to carente. Ele chega em casa de manhãzinha, a gente passa algumas horas juntos e, não me entendam mal, ele é um cara legal. Mas eu liguei pra você, e eu me lembro de você cada vez que o relógio aponta números repetidos.
Pois é só o seu número que eu to procurando evitar quando eu fico de porre, sabe?

Juliana Xavier

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um começo de filme

E ele não iria me ligar. Minha mão desenhou a sua boca em leves toques. Toques e beijos. Beijos deles em mãos de homem. Ele me colocou sobre seu peito e eu sentia o sangue passeando em batidas, acelerado de excitações, deixando o ar entrar. Arritmia... o deliciar do conhecer.
Nossas mãos com pêlos, marcadas por veias, com unhas roídas. Mãos grosseiras no segurar.Mas antes, mãos que dançaram conforme o ritmo do filme. Acariciaram ouvindo o som clássico. Som de filme. Ao fundo, Buenos Aires cantava e em nós, ali, já as possíveis promessas. O bom jogo de palavras, o convencimento de que estava surgindo um iniciar, um gostar, um começo. Palavras que fizeram desejos, palavras bonitas de serem acreditadas. Na ingenuidade, no descrer... esperando. A cabeça entre beijos, a cabeça não pensando, a cabeça divagando num depois. Num querer ser.
No dia seguinte, não ligou. Esqueceu de nossa dança? Estaria ele muito acostumado com os passos? Falou tudo aquilo como falaria uma receita de bolo. Beijos não tão bons quanto de seu antigo amor? Carinhos não tão intensos como aqueles? Deve ser isso. Aquilos. Palavras ditas no ar , em horas de um aconchego trivial, de cenas ensaiadas, dos meus não dizeres assustados. Era um primeiro encontro.
Mas ele já não me ligaria.

Lucas Balieiro

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quilombo

Acho que logo depois de nascer o mundo inteiro já nasce com um chicote na mão. Muito antes da pulseirinha da maternidade ou do teste do pezinho, todo mundo tem estendido logo ali entre os dedos esse instrumento. Agora, o que fazer com ele é uma pergunta muito séria pra quem acabou de nascer. Então, conforme o tempo se experimenta de tudo: se chicoteia, sarrafa os outros, se enforca, enfia no rabo, de tudo mesmo.
Automaticamente, a pessoa é incumbida de um poder de decisão que afeta a sua vida inteira: afinal, como é? O que fazer com esse chicote? Masoquista, sádico ou os dois? E eu nunca tive tanta certeza que eu escolhi o caminho mais sofrido: a todo instante, me coloco à prova. Eu sou do tipo que pra deixar de ter medo, faço tudo em uma dose só: em gole seco, abrupto, sem gelo, sem guardanapo, sem canudinho, sem nada. Atravesso a rua fora da faixa de pedestre, engulo peças de lego, roubo cinzeiros de cada restaurante visitado, experimento droguinhas recreativas, tudo isso pra ter uma sensação de transgressão. Estômago embrulhado. Mudança, sei lá: movimento!
E assim conheço, juro que me apaixono, faço questão de não falar nada logo de cara pra não assustar, convivo, a pretensa intimidade vem, a certeza de estar pisando num terreno seguro em consequência e o inevitável acontece: uma enxurrada de declarações. Minhas. Pra você. Com o meu lapso de certeza. E o velho chicote, impossível de se livrar, me dá logo uma sarrafada bem no cóccix, perto da bunda. Melhor: eu faço questão de não dosar na força.
As chicoteadas são tão constantes que é o tipo de dor que consideram primordial pra crescer e reconhecer o lado oposto, os momentos de prazer. E desculpa, não me perguntem coisas sem explicação. Não me perguntem o porquê de tanta dedicação. Eu sinceramente não sei, boto a culpa no chicote.
E tudo isso em nome daquela primeira dose, do primeiro momento de euforia: o mundo está aos meus pés porque eu finalmente acho que consegui o que eu quero. Aí vêm as tentativas de repetições: por favor, não seja egoísta, me deixa sentir isso de novo. O retorno?! Uma bela sarrafada no lombo, marca de quilombo que só Zumbi dos Palmares teve o desprazer de sentir.
Portanto, só me deixem pecar por muitas reclamações e autoindulgência, vai. Afinal, nasci com essa porra desse chicote que tá muito bem fixado na palma da minha mão.

Juliana Xavier