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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

glass


Eu nunca tento pegar copo de vidro no ar, eu aceito a queda na boa. Não por medo de me cortar, mas porque é estranhamente gostoso ver o copo se espatifando no chão.
Um exemplo verossímil?! Meu primeiro dia de calça branca. Sempre quis uma, comprei faz pouco tempo. Tava me sentindo bem, sabe? Camiseta preta legal, calça branca, cabelo ok e all star de cano alto. Tava pagando, claro. Mas tava me sentindo bem daquele jeito. E não se enganem: é muito fácil encontrar pessoas vestidas exatamente iguais a você em grandes cidades. Pois é, não se espantem: em São Paulo, não existe genuinidade. Há tribos até para não tribos.
Bom, cheguei mais cedo aonde eu deveria chegar. Cheguei de calça branca e pedi um café preto. Sentei-me em uma das mesinhas da lanchonete, arranquei uma folha do meu caderno de motivos infantis (mais um traço da minha falta de maturidade?! Será?!) e comecei a escrever um e-mail pra alguém que certamente nunca vou enviar de verdade, assim como milhões de textos muito bem guardados em folhas dobradas e arquivos de computador. Um amigo chegou: interrompi o texto, dobrei o papel e botei em um dos bolsos.
Ele, com seus gestos largos, jeitão de Don Corleone, abre um dos braços e derrama todo o café na minha calça branca. Todo! Mesmo!
Pois bem, sabe o que eu fiz?! Levantei e não gritei, não berrei, não falei palavrão, nada. Fiquei olhando o café quente colorir a calça, mudar o meu cheiro. Só depois de alguns minutos resolvi ter alguma reação. A moça da lanchonete optou pelo terrorismo, ‘nossa, a calça é branca ainda, não vai sair nunca!’. Passou-me uma receita paliativa qualquer, me emprestou um detergente e me mandou direto ao banheiro. E foi exatamente o que eu fiz, arrastando também o meu amigo pra lá. No toillete, tirei as calças na frente dele fazendo uma piadinha infame da situação, ‘ah, pelo amor de deus, não tem nada que você ainda não tenha visto por aqui’. Ele, puxando as mangas da camisa, pegou o detergente e passou nas manchas, que até saíram, mas no final, depois do detergente, parecia que o meu banho foi no chiqueiro, junto com os porcos no lamaçal.
Eu gostaria que ele soubesse que eu não tava me importando muito com o cheiro ou com as manchas. O processo inteiro foi bizarro de tão bom: o café - cheiro e intensidade bem no meio das minhas pernas.
Eu não me importo em limpar a sujeira. Eu fissuro no movimento. Quedas de cima pra baixo, de baixo pra cima, debochando da gravidade: o que importa é o movimento. Espiral, brusco, lento, tosco, da esquerda pra direita, da direita pra esquerda, como leitura japonesa.
Nada que se não movimento.

Juliana Xavier

sábado, 19 de dezembro de 2009

Eu e você

Então, deixe ser o por enquanto.
Não resistir. Sentir o calor,o galo cantar e não ver a hora.
Ter meu cabelo todo emaranhado, não seriam nós. Era sua mão.
Deixe por essa noite ter seu corpo, em mim, pra mim. Meu.
Não acredito em livros, os filmes deixaram de ser verossímeis.
Mas façamos esse instante?
Meu e seu.
Não pense.
Deixe eu te arranhar,
desenhe minha boca,
me faça homem,
singelo e intenso.
Permitindo o ser,
não faça em mim o gosto de saudade.
Dói demais e sinto não querer suportar.
Me goze,
me faça,
me tenha,
nesse instante.
Hoje.
Sendo meu e seu.

Lucas Balieiro

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

ui ui ui!

Você não faz ideia do quanto é gostoso te ver exibindo a sua insegurança feito pavão depenado!
Pisando em ovos, é?! Experimenta um pouquinho da sensação que eu tive durante um bom tempo. Pois meu amor, se existe karma, ele tá se manifestando e é agora!
Estou em plenos direitos de cantar vitória antecipadamente e fincar a bandeira de vitória em tudo quanto é coisa mal resolvida.
Eu juro que eu queria que o mundo não tivesse joguinhos&blefes, tá por cima, tá por baixo. Mas tem, e agora ando leve em passos muito contentes.
Não me acuse de mal agradecida, eu reconheço a sua importância. Quer ouvir o que você já sabe, mas o seu ego sempre implora por mais, mais e mais?! Eu nunca vou me esquecer de você, pro bem ou pro mal.
E apesar de você ser você, não há melhor remédio do que sentir aquele nervosismo de novo (agora pode se ofender: finalmente não é por você).
E é só isso que eu tenho a dizer, pois se de fato eu fosse tão rancorosa assim, dedicaria esse blog inteiro às minhas mazelinhas sem fim.
Ai, que delícia!

3,14

Sangue fervendo: ligar pra você pela primeira vez. Claro, bebi uma ou duas cervejas antes e mais uns goles do champagne caro roubado no supermercado.
E eu sei como vai ser: você vai falar sem parar porque você é assim e eu fico encarregada de preencher as lacunas silenciosas, aqueles poucos segundos de ar entrando ou saindo. Eu preciso ser convincente sobre o quanto essa ligação é despretensiosa, o quanto eu to relaxada, apenas fazendo um convite. Aí, entre tentativas de parecer legal e disponível, você lembra que essa conversa não é um monólogo.
Poxa! Eu que te liguei, eu tenho coisas a dizer! E eu começo a sorrir porque me lembro que você não fala tanto assim: o nervosismo fala mais alto, não é? Aí chega a um ponto em que eu não me importo mais com o convite negado ou se a sua desculpa foi, de fato, sincera. A gente dividia nervosismo, e eu, no auge do meu romantismo, transformo isso em lembrança gostosa.
A gente marca pra outro dia, pode ser até uma frase feita. Mas quem disse que eu ligo?! A minha pequena vitória está em conseguir te ligar, e não se esse telefonema será uma pequena amostra do que vem pela frente. E por mais que eu queira isso cada vez que os números repetidos aparecem – a cada 22:22, 17:17, 01:01, o meu pedido é você – fico contente com esse wannabe.
Eu não sigo uma cartilha. Não tenho modismos ou fórmulas eficientes pra chamar a atenção de ninguém. Eu faço tudo meio sem jeito, sabe? Quando eu esqueço que o meu sangue ta borbulhando e eu não to mais rindo de tudo que você fala, eu consigo reparar que realmente não existe a menor estratégia nas coisas que eu faço.
E bom, eu desligo o telefone pensando no que eu espero: algum dia você vai saber que foram 4 minutos da minha vida tentando prestar atenção no que você falava e, ao mesmo tempo, tentando me concentrar pra não parecer muito idiota.
Dali a meia hora, ligo pra outra pessoa. Outra pessoa que eu não ligo bastante, mas eu to carente. Ele chega em casa de manhãzinha, a gente passa algumas horas juntos e, não me entendam mal, ele é um cara legal. Mas eu liguei pra você, e eu me lembro de você cada vez que o relógio aponta números repetidos.
Pois é só o seu número que eu to procurando evitar quando eu fico de porre, sabe?

Juliana Xavier

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Um começo de filme

E ele não iria me ligar. Minha mão desenhou a sua boca em leves toques. Toques e beijos. Beijos deles em mãos de homem. Ele me colocou sobre seu peito e eu sentia o sangue passeando em batidas, acelerado de excitações, deixando o ar entrar. Arritmia... o deliciar do conhecer.
Nossas mãos com pêlos, marcadas por veias, com unhas roídas. Mãos grosseiras no segurar.Mas antes, mãos que dançaram conforme o ritmo do filme. Acariciaram ouvindo o som clássico. Som de filme. Ao fundo, Buenos Aires cantava e em nós, ali, já as possíveis promessas. O bom jogo de palavras, o convencimento de que estava surgindo um iniciar, um gostar, um começo. Palavras que fizeram desejos, palavras bonitas de serem acreditadas. Na ingenuidade, no descrer... esperando. A cabeça entre beijos, a cabeça não pensando, a cabeça divagando num depois. Num querer ser.
No dia seguinte, não ligou. Esqueceu de nossa dança? Estaria ele muito acostumado com os passos? Falou tudo aquilo como falaria uma receita de bolo. Beijos não tão bons quanto de seu antigo amor? Carinhos não tão intensos como aqueles? Deve ser isso. Aquilos. Palavras ditas no ar , em horas de um aconchego trivial, de cenas ensaiadas, dos meus não dizeres assustados. Era um primeiro encontro.
Mas ele já não me ligaria.

Lucas Balieiro

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Quilombo

Acho que logo depois de nascer o mundo inteiro já nasce com um chicote na mão. Muito antes da pulseirinha da maternidade ou do teste do pezinho, todo mundo tem estendido logo ali entre os dedos esse instrumento. Agora, o que fazer com ele é uma pergunta muito séria pra quem acabou de nascer. Então, conforme o tempo se experimenta de tudo: se chicoteia, sarrafa os outros, se enforca, enfia no rabo, de tudo mesmo.
Automaticamente, a pessoa é incumbida de um poder de decisão que afeta a sua vida inteira: afinal, como é? O que fazer com esse chicote? Masoquista, sádico ou os dois? E eu nunca tive tanta certeza que eu escolhi o caminho mais sofrido: a todo instante, me coloco à prova. Eu sou do tipo que pra deixar de ter medo, faço tudo em uma dose só: em gole seco, abrupto, sem gelo, sem guardanapo, sem canudinho, sem nada. Atravesso a rua fora da faixa de pedestre, engulo peças de lego, roubo cinzeiros de cada restaurante visitado, experimento droguinhas recreativas, tudo isso pra ter uma sensação de transgressão. Estômago embrulhado. Mudança, sei lá: movimento!
E assim conheço, juro que me apaixono, faço questão de não falar nada logo de cara pra não assustar, convivo, a pretensa intimidade vem, a certeza de estar pisando num terreno seguro em consequência e o inevitável acontece: uma enxurrada de declarações. Minhas. Pra você. Com o meu lapso de certeza. E o velho chicote, impossível de se livrar, me dá logo uma sarrafada bem no cóccix, perto da bunda. Melhor: eu faço questão de não dosar na força.
As chicoteadas são tão constantes que é o tipo de dor que consideram primordial pra crescer e reconhecer o lado oposto, os momentos de prazer. E desculpa, não me perguntem coisas sem explicação. Não me perguntem o porquê de tanta dedicação. Eu sinceramente não sei, boto a culpa no chicote.
E tudo isso em nome daquela primeira dose, do primeiro momento de euforia: o mundo está aos meus pés porque eu finalmente acho que consegui o que eu quero. Aí vêm as tentativas de repetições: por favor, não seja egoísta, me deixa sentir isso de novo. O retorno?! Uma bela sarrafada no lombo, marca de quilombo que só Zumbi dos Palmares teve o desprazer de sentir.
Portanto, só me deixem pecar por muitas reclamações e autoindulgência, vai. Afinal, nasci com essa porra desse chicote que tá muito bem fixado na palma da minha mão.

Juliana Xavier

domingo, 29 de novembro de 2009

Final de festa

Por que sobraram apenas as unhas roídas, ditas.
No fim da festa, um corpo magro ao chão.
De resto, ficaram apenas os pileques...

Sentados na rua já não ficam.
Tudo criado e a mentira querendo ser verdade.
Prepotente...
no agora, o nariz é muito grande. Desproporcional até.
Já não se olha,
Quebrante e mais unhas roídas.

Também a cor da camiseta,
Os dentes amarelos por horas de fumo,
Olheiras...
Em nada mais a semelhança,
Disseram que havia e
Se acreditou.

Gargalhada pelo achado,
Cócegas já de costas... indo, indo .
O grafite reforçado ,
O apagar em mãos,
Negando o maior bem que fazia
Por anos: a distância de você.

Lucas Balieiro

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Detalhes tão pequenos de nós dois

Entre o francês aprendido com Moulin Rouge, o vinho tinto, as velas espalhadas estrategicamente pelos cantos da casa, o fondue, a lingerie de rendinha, o jantar japonês, o chocolatinho, as cartinhas e recadinhos de amor, os créditos sempre no fim, o cinema corujão de domingo, o primeiro constrangimento de levar pra casa pra passar a noite dividindo o mal estar dos pais (que sempre estão sentados no sofá, com os olhos bem abertos pra observar o seu bate cartão), as promessas de ‘sempre, nunca, alguém, ninguém’, enfim, palavras vergonhosamente definitivas, o frenesi do tesão inicial inexplicável, o bode da transa previsível e obrigatória de sábado à noite, já que não há mais – hmmm, vai, agora cabe a desculpa de falta de tempo pra disfarçar eventuais sensações de saco cheio – t e m p o pra ficar (sempre) disponível anytime, anywhere, e blablablabla, laugh, Love, get drunk and fuck, eu fico (sempre) com aquele primeiro impulso que (sempre) é justificado por excesso de bebida ou qualquer outra droga que te dê algum barato (pode ser até uma descarga natural de adrenalina, tanto faz). Antes de qualquer coisa, eu sou de carne, osso e coração – debocho, mas desejo secretamente todos esses clichês de amorzinho, amor & amorzão. Mas enfim, o que eu to tentando dizer, de um jeito toscamente desajeitado e com muitos rodeios, é que entre tudo isso e a vontade mais primitiva de um corpo pulsante, em que todos os delírios racionais de blefes, orgulho e dignidades próprias são jogados na lata do lixo, que te fazem ir correndo para o quarto ou banheiro mais próximos pra extravasar a tensão, não tenha dúvidas: nenhuma história é tão boa quanto o simples exercer da profissão mais antiga do mundo (e o melhor de tudo: sem pagar nada). Nenhuma história é boa o suficiente pra guardar cheiro, gosto e líquidos que não te pertencem, mas que por uma fração de segundos, minutos ou até horas, ficarão em você.
Entre tudo que tá dentro e tudo que tá fora de você, eu fico, sinceramente, com o lado de dentro, sabe? Com as pequenas descobertas do toque de coito. Se você fecha os olhinhos ou faz questão de mantê-los assustadoramente abertos do começo ao fim; se a sua marca de vacina forma uma figura bizarra ou se desapareceu conforme o tempo; se as suas pintas moram em lugares pouco ortodoxos; se as suas cataporas te deixaram marcas, assim como o último sol ardente; suas unhas são do Zé do Caixão ou você rói? Importa-se com a aspereza do seu cotovelo ou a textura dos fios de cabelo? Corta os pêlos com tesourinha ou depila?! Respiração de asmático ou de bicho sufocado? Muito filme pornô na adolescência (possível explicação pros seus péssimos maneirismos viciados) ou imaginação fértil de quem supunha o que tinha por trás daquela pin-up ou vizinha-mãe-gostosa que passava a tarde botando roupa no varal? A lista é extensa. Agora, o resto eu e o mundo inteiro fingimos adorar pra não ter que pedir desculpa ou permissão para seguir em frente no primitivismo cujas únicas preocupações transitam entre dar ou comer, ou qualquer outro verbo deliciosamente vulgar.
Ah, os muros da cidade deveriam ser que nem porta de banheiro de boteco ou adesivo de telefone de orelhão: não é o amor que é importante, porra! E sim - a princípio - a porra que é importante, amor.

Juliana Xavier

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Sem saída

E quando eu quiser dizer e não poder. Você em apenas um braço de distância.
E se me calar e meu olhar me condenar. Conhece o segredo da armadura de papel.
E se, porém, quiser me afastar. Sabes que não consigo.
E se dissimular, fingir , sempre fui bom em mexer o corpo. Você sabe dançar minha música.
E se fechar os olhos quando você passar. Ainda terei o seu perfume.
E se me mudar, conhecer o outro lado, ares mais frios. O seu número ainda é o mesmo?
E se deixar tudo de lado e dizer.Chorar palavras, usar meus sonhos. Te beijar. Assim, te perco pra sempre.
Solução ou martírio? Sentença escolhida.Sempre em riste, algemado na postura do irmão, no não pensar. Dissolvo, esperando o tempo, até que alguma outra escolha se faça. Como naquele dia de Natal.

Lucas Balieiro

domingo, 15 de novembro de 2009

Vanessa Love, Lambe, Limbo

Visitavam-na apenas a noite. Quando muito, ela ainda torneava os cílios com um lápis preto dado pelo último namorado, quer dizer, pela última promessa. Quando ela ainda caia nelas, quando ainda acreditava que as fábulas podiam não ter cores, quando achava que a Lua podia ser algo além da iluminação natural de todo dia, além de um raio de sol noturno.
Exaltava os beiços no espelho de bolso e o batom riscava aquele pedaço de carne humana, invertendo a ordem. Sangue por fora, lábio para dentro. Ajeitava os cabelos castanhos tingidos recentemente com uma escova de cabo carcomido. A bota alta preta,micro saia e micro blusa também no estilo vermelho sangue. Sempre gostou de combinar e aquela cor era atrativa aos olhares masculinos. Com passos largos, o branco da Lua refletia na sua roupa, reavivava a feminilidade de todos os dias, mas hoje era diferente, se sentia bonita, mexia os cabelos levemente ondulados e estava feliz. A noite desejava ela e ela não via à hora de se entregar.
Puta! Chega aqui! Flertes, passadas de mal, risadas... Falsas, e o fim sempre aquele: 150 a hora, interessa? Entra no carro, o falo já erguido à sua frente... Sente vontade de ir embora, regado a certa tentação, gostava daquilo e sabia fazer bem. Cede e entre gemidos ecoa seu fingir durante aquela uma hora, segredo da esquina, anos de passos refletidos por Luas.
O dentro por tanto mostrado. O dentro do fora. Não foram picas que algum dia fizeram o coração dela bater mais rápido. Ela tinha uma vida fora aquela do teatro, do vermelho sangue, da rua. Era Vanessa, geminiana, 25 anos de idade, com vontade de prestar uma faculdade, conhecer Barcelona e alguém que a tirasse daquela vida. Enquanto o tempo a desacreditava, escrevia sua estória e guardava na poupança, remontaria o quebra cabeça, daria volta por cima e se mandaria para fora.
Não era um karma aquela vida, gostava do sexo, gostava de se sentir desejada, se protegia todas às vezes e já não bebia há muito tempo. Mas uma hora aquilo tudo cansa.Estar tão próximo do que muitas nunca nem viram, posições mirabolantes, gozos e tantos orgasmos. Músculos, pêlos, virilidade e entrega. Mas nunca um grito de amor, um sentir que a tirasse do teatro, que a fizesse cair do palco. Nunca. Eram cenas repetidas. Duas, três, quatro até oito vezes dependendo da noite. Na sua casa, nos motéis, em Audis, Blazers e Fuscas... Sete da manhã volta e sua casa com o gosto de madrugada ainda, os lençóis revirados, a cama quente da sua última trepada. Cansava. Adentrada, no limbo, lambendo a sua não satisfação e a masturbando diariamente com mais shows, cenas e mentiras. Mas tinha dinheiro na poupança e em outro lugar poderia ser conhecida apenas por Vanessa... Love, lambe, limbo – seu nome da noite cairia, seria esquecido e seu celular desativado. Uma nova vida, um recomeço, mas não ainda... Mais dinheiro, mais Luas, vermelhos, gemidos, novas temporadas de uma peça que parecia não ter mais fim.

Lucas Balieiro

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Querer

Não pedia muito. Queria por um dia, uma hora, talvez até meia, poder ser arrogante como alguém muito bonito, ter o nariz empinado dos atores, queria passar e ver que alguém me olhava, queria que me pegassem pelos braços e sem perguntar ganhasse um beijo, queria passar na rua e conhecer um desconhecido, ou talvez, ser conhecido por alguém desconhecido.Um texto só para mim, queria uma declaração anônima, mas sem flores ou carros espirrando papel prata. Por um dia gostaria de ter o passado, mas não ele todo, em momentos. Fragmentos saudosistas, um drible na realidade. Queria pensar a mesma coisa que alguém, queria um sonho comigo, queria um sexo recíproco e intenso, queria a Lua mais perto, poder viajar a hora que quisesse. Queria não ter compromissos, viver ao acaso, queria sair do cinema de mãos dadas, queria uma relação de anos, da mesma forma, um encontro único de um dia.Gozo imediato. Um trabalho reconhecido, dinheiro de forma prazerosa, queria não me irritar com o fora, queria poder acalmar o dentro. Queria um mergulho de cachoeira e depois sentir o vento no cabelo, um secador natural. Queria ser sincero, e as vezes, mais mentiroso. Queria um lugar inóspito com alguém querido, queria goles de segurança, certezas em terrenos movediços, queria vontades ditas, desejos saciados e mais sonhos, queria conhecer outros quereres, uma vez ter de me adaptar com o diferente, com outro corpo. De alguém que valesse a pena. Queria...

Lucas Balieiro

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Without work, you have nothing

De tanto querer que entrasse na minha vida – como há muito aconteceu durante um bom tempo – agora eu tenho quase certeza que eu não quero mais.
Não saber funcionava como acalento à angustiada sensação de pontinha de esperança: ‘ah, as coisas vão se encaixar algum dia’
Aí eu deixo as janelas e as portas abertas pra entrar na minha casa: se serve da minha água gelada, limpa os pés no meu tapetinho, faz carinho na minha cachorra e trata os meus amigos como seus cúmplices. E simples assim, leva tudo de mim, dissolve todos os pronomes possessivos tão meus.
Sonda os meus passos, liga pra não dizer nada: liga pra sondar os meus passos.
Eu, que nunca fui dada a ninguém, tenho que arcar com tudo isso. E a partir de agora, tenho milhões de possibilidades: invento mentiras sobre fugas sem volta pra tentar colorir aquele elefante branco da sala, pra recolher o tapete e limpar a sujeira; correspondo e coloco minhas etiquetas de ‘isso é meu, cheguei antes’ até nos dedinhos dos seus pés, como se fosse o meu iogurte da geladeira, ou, e dizem ser a opção mais covarde: simplesmente deixo pra lá.
E deixando pra lá, o ‘não sei’ aparece de novo com uma intensidade monumental: parece que toda vez que você se aproxima, meu coração bate ‘não sei’ até comer todas as letrinhas e sobrar só o ‘n’ e o ‘i’ juntos.
Por isso, não me venha falar de amor platônico ou confiança sem igual, já que o meu coração bate em taquicardia toda vez que você chega. Não venha querer me dizer que isso é saudável.
Eu já combinei de te dar uma surra pra arrancar a verdade, te dopar ou criar uma história mirabolante sobre a minha ida a um país muito, mas muito, distante.
Mas é muito simples. Eu só quero que você reconheça, sem nenhum tipo de propriedade narcisista: ‘fiz bagunça!’. Agora, se você me quer com o mínimo de carinho – como diz tanto por aí - faça o favor de limpar.

Juliana Xavier

Perfazendo

Não ache que é o sentir,
não ameaçe-me,
pois não é feito por se querer,
de sem querer também nada se tem.
Faço por aquela última carta ter caído,
visto-me , pois finalmente, a impossibilidade se desnudou.

Não haveria como...
eram duas idéias opostas,
clivagens e incontáveis pudores.

Eram vestígios de mentiras, escolhas feitas e fábulas.
Um quadro surrealista posto na parede,
de ponta cabeça.
Uma marca de sangue no chão da sala,
Era a forma perfeita de um sonho depois do almoço.

O velado acendia em dizeres,
em ações, em nuncas...
certo se estava,
errado apenas eu permanecia.
Um fardo nas costas,
o livro ao peito
- anos se faziam.

Sentimentos não se explicam,
são mentidos,
omitidos...
São negados.
Até que uma hora o coração palpita em outros ritmos
e se pode terminar o capítulo.

Meu cansaço ainda deixou-me uma última linha.

Lucas Balieiro

sábado, 31 de outubro de 2009

As noites davam vontade de chorar.

Ele não tinha feito nada. Quieto, em meio aquele seu quarto, daquela sua noite, do seu choro dentro das cobertas.
Almejava um auto controle por respiradas ritmadas, aquilo tudo girava em sem sentido. E o menino ao pé da cama, queria soluções. Queria o antigo abraço, queria sentir aquele corpo que o aprisionara cochichando ao pé do ouvido, cantarolando posse. E ele se entregava em noites frias aos achismos prazerosos e gotejava durante o verão, caindo em misturas homogêneas: sexo e suor.
Agora, só o pé da cama o tinha, o chão gelado pela brisa da madrugada, a janela aberta deixava a Lua fazer visita. Rir dele, chorar com ele, desabafar. O menino queria ter prazo como a Lua.Um descanso... Era tão grande a falta.
O cheiro da cozinha, a leveza dos lençóis, os banhos e as promessas. Secando o cabelo, brincando de se reconhecer, de corpo em corpo. Em não pensar, em gemidos suspirados, aos beijos.
Repente... uma música vinha de longe. Uma música vinda da cidade. Dos segredos só a ela contados, uma canção que havia o escolhido e o pobre menino a queria ouvir. Talvez, ela sim, poderia o entender. As noites davam vontade de chorar. E ele chorava as gotas pingando em seus pés, as gotas clareando as memórias, ou talvez, apagando o esquecimento.
Os ritmos dançando em dois, em instantes parados, momentos em que se olhavam e sabiam o sabor de cada pinta, a textura de seus poros. Sentia o pesar de não se ter e o som da música por tanto ouvida, nos momentos unos e, assim, retidos em memória. Memórias que dentro da cabeça apenas ficavam, lembranças escondidas em não cumprimentos e grosserias.
E seria assim. Ao pé da cama, a música da cidade, a Lua zombando, e o menino queria chorar. Chorar o que não se tinha, o que nunca teve.

Lucas Balieiro

Escatologia

Todos os meus nãos são querendo dizer sim
Não busco definir desvios de sexualidade, seria decisivo demais pra mim
Eu lido bem com as minhas vontades, são elas que dispensam a definição hierárquica por preferências
Como se fosse possível distinguir em qual gênero o desenho da boca é mais bonito; onde a saboneteira se mostra com mais facilidade; quais são os pêlos que eu prefiro puxar e contar; em qual silhueta o osso que liga o abdômen ao quadril é mais atraente
Eu não sei dizer, por isso que eu olho
Não pro rapazinho no ponto de ônibus: eu olho pra mesma saboneteira, mesmas pintinhas, mesmo cruzar de mãos há algum tempo
E se a dose de observação for diária, o encanto só aumenta
Saber que você caga, mija, vomita, ronca, fede e sua até no friozinho atiça a minha curiosidade
Você soltando aquele peidinho sem querer, e eu sorrindo por dentro: a minha certeza é que sou capaz de te querer cada vez mais no dia seguinte
Quer saber? Acho que nunca foi ‘acho que agora eu quero’
(Acho que) eu sempre quis

Juliana Xavier

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Sem título

Talvez mais um simples quadro na parede da memória. Relíquia. Quem sabe um outro momento dos tantos que sei que virão.
A luva para aquele instante em que se abre a geladeira e não se tem o que pensar. O gracejo dos segundos de sonho acordado.
A primeira vez em que vetores fizeram algum sentido. Meus sentidos acobertados e minhas cobertas sem sentidos.
Um distúrbio? O além de mim, a sensação de pedra, de rocha, de realização. Para mim, de mim e meu.
O toque, sem jeito, mas torneado. Da cabeça baixa ao alarme por qualquer movimentação. Verossímil.
Manias engolfadas nos nostálgicos corredores de um colégio particular. Controverso, enganado, estupefato. Tudo jogado, pisado, queimado e morto. E cálido.
Mas desses amanheceres o tamanho da vida! Grande , mas de olhos cegos. E que de lapsos irremediáveis escancara azuis, amarelos e vermelhos jamais vistos. São lindos e vale muito a pena os ver.

Lucas Balieiro

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

De uma noite

Meu sexo escorrendo na pia,
Meu fogo suando a cama.
Sua voz contava segredos,
Jurava amores,
Seu toque desnudando
Em roupas,
Outras mãos,
Das outras partes -
Escondido.

Meu secreto, seus pêlos
Esculpindo o desejado
Embaixo dos lençóis –
Protegido.

Juvenil amor,
Gostinho do pra sempre,
Mas vai-se como vento,
Como um bocejo,
No cicatrizar de um corte,
Vai-se como meu sexo na pia –
Esquecido.

Lucas Balieiro

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Quero/ Carlos Drummond de Andrade

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutosme digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anteriore no seguinte,
como sabê-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
que me amas que me amas que me amas.
Do contrário evapora-se a amação
pois ao não dizer: Eu te amo,
desmentes
apagas
teu amor por mim.

Exijo de ti o perene comunicado.
Não exijo senão isto,
isto sempre, isto cada vez mais.
Quero ser amado por e em tua palavra
nem sei de outra maneira a não ser esta
de reconhecer o dom amoroso,
a perfeita maneira de saber-se amado:
amor na raiz da palavra
e na sua emissão,
amor
saltando da língua nacional,
amor
feito som
vibração espacial.
No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

terça-feira, 27 de outubro de 2009

No dito

Em dizer sim,
por fim, eu nego.

Das negativas
acabo me afirmando.

Incerto, por vezes, me calo.
O silêncio , quase sempre, me mostra.

E sonho,
com aquilo não dito.

No dito, me faço sombra.
Escuro, escolho meus passos.

Não sendo, refaço promessas.
Não digo,
no dito,
no cansar de minhas estórias criadas.

Lucas Balieiro