Entre o francês aprendido com Moulin Rouge, o vinho tinto, as velas espalhadas estrategicamente pelos cantos da casa, o fondue, a lingerie de rendinha, o jantar japonês, o chocolatinho, as cartinhas e recadinhos de amor, os créditos sempre no fim, o cinema corujão de domingo, o primeiro constrangimento de levar pra casa pra passar a noite dividindo o mal estar dos pais (que sempre estão sentados no sofá, com os olhos bem abertos pra observar o seu bate cartão), as promessas de ‘sempre, nunca, alguém, ninguém’, enfim, palavras vergonhosamente definitivas, o frenesi do tesão inicial inexplicável, o bode da transa previsível e obrigatória de sábado à noite, já que não há mais – hmmm, vai, agora cabe a desculpa de falta de tempo pra disfarçar eventuais sensações de saco cheio – t e m p o pra ficar (sempre) disponível anytime, anywhere, e blablablabla, laugh, Love, get drunk and fuck, eu fico (sempre) com aquele primeiro impulso que (sempre) é justificado por excesso de bebida ou qualquer outra droga que te dê algum barato (pode ser até uma descarga natural de adrenalina, tanto faz). Antes de qualquer coisa, eu sou de carne, osso e coração – debocho, mas desejo secretamente todos esses clichês de amorzinho, amor & amorzão. Mas enfim, o que eu to tentando dizer, de um jeito toscamente desajeitado e com muitos rodeios, é que entre tudo isso e a vontade mais primitiva de um corpo pulsante, em que todos os delírios racionais de blefes, orgulho e dignidades próprias são jogados na lata do lixo, que te fazem ir correndo para o quarto ou banheiro mais próximos pra extravasar a tensão, não tenha dúvidas: nenhuma história é tão boa quanto o simples exercer da profissão mais antiga do mundo (e o melhor de tudo: sem pagar nada). Nenhuma história é boa o suficiente pra guardar cheiro, gosto e líquidos que não te pertencem, mas que por uma fração de segundos, minutos ou até horas, ficarão em você.
Entre tudo que tá dentro e tudo que tá fora de você, eu fico, sinceramente, com o lado de dentro, sabe? Com as pequenas descobertas do toque de coito. Se você fecha os olhinhos ou faz questão de mantê-los assustadoramente abertos do começo ao fim; se a sua marca de vacina forma uma figura bizarra ou se desapareceu conforme o tempo; se as suas pintas moram em lugares pouco ortodoxos; se as suas cataporas te deixaram marcas, assim como o último sol ardente; suas unhas são do Zé do Caixão ou você rói? Importa-se com a aspereza do seu cotovelo ou a textura dos fios de cabelo? Corta os pêlos com tesourinha ou depila?! Respiração de asmático ou de bicho sufocado? Muito filme pornô na adolescência (possível explicação pros seus péssimos maneirismos viciados) ou imaginação fértil de quem supunha o que tinha por trás daquela pin-up ou vizinha-mãe-gostosa que passava a tarde botando roupa no varal? A lista é extensa. Agora, o resto eu e o mundo inteiro fingimos adorar pra não ter que pedir desculpa ou permissão para seguir em frente no primitivismo cujas únicas preocupações transitam entre dar ou comer, ou qualquer outro verbo deliciosamente vulgar.
Ah, os muros da cidade deveriam ser que nem porta de banheiro de boteco ou adesivo de telefone de orelhão: não é o amor que é importante, porra! E sim - a princípio - a porra que é importante, amor.
Juliana Xavier
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