To tentando escrever sobre abstracionismo e subjetividade. To sentindo 'medo' e 'euforia', ou alguma coisa parecida com isso. É foda ter cabeça pragmática e coração em desalinho. Meu coração é burro feito uma porta, semianalfabeto: só entende de vem, vai, sim e não. Pelo menos minha cabeça imprime isso, sei lá. É tão estranho sentir que há duas partes largamente desconexas no seu corpo: parece que alguém entrou na minha festinha sem ser convidado. É aquele bicão que dá vexame, só que demora pra ir embora, fica ali, deitado no chão da sala atrapalhando a limpeza.
Sabe o que eu queria mais? Ter aquela profissão de saber cheirar pra distinguir perfumes. Sabe o que eu queria muito mais? Separar a flor-de-laranjeira do cheiro da grama, por exemplo. E do cheiro de bosta também, de encrenca. Será que o seu cheiro é de mar? Do seu irmão? Da sua mãe? O seu cheiro num pedaço de pano, num conjunto de linhas... Quanta heresia! Sábio aquele que soube definir amor com uma palavra: cheiro. Amor é reação fisiológica animalesca porque é exatamente isso o que a gente é: animal. Animal que sabe juntar letrinhas pra descrever o que sente, pra descrever os cheiros que sente.
Voltando ao seu cheiro: ele interrompeu a minha tarde. Voltando à sua fala: você espera o morno, café requentado, porque ninguém vive em pirofagia durante anos. Voltando à minha: se for desse jeito, não quero mais. Voltando à nossa: ninguém é um pote de danone de fácil substituição. Voltando à despedida: todo cuidado é pouco. Voltando à minha cabeça: Você.
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