A palavra autonomia me causa arrepios como a peste negra gerava pavor nos vassalos e suseranos. Ela não é transmitida por pulgas, mas me assombra em cada resquício de criação familiar. Assim, não saber fazer o movimento da pinça enquanto eu descasco uma laranja é um erro tão crasso quanto se tivesse assaltado alguém. Também é uma afronta ao ser humano que lutou por zilhões de anos pra comprovar que é diferente do macaco, mas culpa o instinto animal em comportamentos não tão humanos assim. Instinto materno também justifica o desejo das mulheres workaholics que, forçosamente, colocaram o pinto na mesa nas grandes empresas, mas arregam em admitir um desejo tão primário, arcaico e demasiadamente humano que é nascer pra reproduzir. “Eu nasci pra ser mãe” é o novo “socorro, ela é uma bruxa!”. Produz linchamento em praça pública e mesas de bar. É assim que nascem as mães octopus (ou o que uma penca de filhos pode fazer pelos límpidos costumes norte-americanos. Ou 'nossa, o circo chegou! Temos um novo Homem Elefante', ou 'não chupei um presidente, mas já chupei bastante gente e cá estou', ou ok, parei com o julgamento).
Assalto, pois, é condenável. Mas se eu tiver bêbada ou se peguei sem pagar um saco de bubaloo sabor uva nas Americanas é perdoável; demorar vinte minutos pra descascar uma laranja não pode: é o seu atestado de incapacidade por preguiça; é, mais uma vez, uma afronta ao ser humano - PS: É o apontamento de falhas na minha criação. Nenhuma mãe quer sofrer por isso.
Os sete pecados se eximem de culpa em se tratando de pequenas habilidades diárias. “Pois mãe, não sei fazer arroz porque quero viver de amor”. E até onde eu saiba,
amor não gosta de arroz. Amor não gosta de nada. Amor é a mina mais autônoma que eu já conheci. Dinheiro é a vadia que arruma as malas e resolve desaparecer do dia pra noite. Dinheiro deixa rombos emocionais. Amor não. O amor não arruma as malas; é justamente quando ela promete ficar pra sempre.
Eu crio teses, retórica e argumentos pra defender o meu desleixo. Eu deixo a autonomia aos idiotas da evolução e ao mito da mulher independente.
Deixo a autonomia pra depois, peço pra alguém gentil descascar as minhas laranjas.
Juliana Xavier
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