Sangue fervendo: ligar pra você pela primeira vez. Claro, bebi uma ou duas cervejas antes e mais uns goles do champagne caro roubado no supermercado.
E eu sei como vai ser: você vai falar sem parar porque você é assim e eu fico encarregada de preencher as lacunas silenciosas, aqueles poucos segundos de ar entrando ou saindo. Eu preciso ser convincente sobre o quanto essa ligação é despretensiosa, o quanto eu to relaxada, apenas fazendo um convite. Aí, entre tentativas de parecer legal e disponível, você lembra que essa conversa não é um monólogo.
Poxa! Eu que te liguei, eu tenho coisas a dizer! E eu começo a sorrir porque me lembro que você não fala tanto assim: o nervosismo fala mais alto, não é? Aí chega a um ponto em que eu não me importo mais com o convite negado ou se a sua desculpa foi, de fato, sincera. A gente dividia nervosismo, e eu, no auge do meu romantismo, transformo isso em lembrança gostosa.
A gente marca pra outro dia, pode ser até uma frase feita. Mas quem disse que eu ligo?! A minha pequena vitória está em conseguir te ligar, e não se esse telefonema será uma pequena amostra do que vem pela frente. E por mais que eu queira isso cada vez que os números repetidos aparecem – a cada 22:22, 17:17, 01:01, o meu pedido é você – fico contente com esse wannabe.
Eu não sigo uma cartilha. Não tenho modismos ou fórmulas eficientes pra chamar a atenção de ninguém. Eu faço tudo meio sem jeito, sabe? Quando eu esqueço que o meu sangue ta borbulhando e eu não to mais rindo de tudo que você fala, eu consigo reparar que realmente não existe a menor estratégia nas coisas que eu faço.
E bom, eu desligo o telefone pensando no que eu espero: algum dia você vai saber que foram 4 minutos da minha vida tentando prestar atenção no que você falava e, ao mesmo tempo, tentando me concentrar pra não parecer muito idiota.
Dali a meia hora, ligo pra outra pessoa. Outra pessoa que eu não ligo bastante, mas eu to carente. Ele chega em casa de manhãzinha, a gente passa algumas horas juntos e, não me entendam mal, ele é um cara legal. Mas eu liguei pra você, e eu me lembro de você cada vez que o relógio aponta números repetidos.
Pois é só o seu número que eu to procurando evitar quando eu fico de porre, sabe?
Juliana Xavier
A cada texto vejo mais a sua cara!
ResponderExcluirem cada virgula, saindo dos pontos e terminando parágrafos. Segura, intensa e feliz
Beijos todos minha companheira de vida e de blog